quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Quem é você?

Como, normalmente, as pessoas procuram saber quem são? fazendo descrições do tipo “eu me chamo Fulano, tenho um temperamento A, um comportamento B e uma reação C, etc.”. O que essa pessoa está dizendo não é exatamente o que ela é porque você não é um temperamento, o temperamento A não é você, ele não faz parte da sua verdadeira essência, da sua verdadeira identidade. Isso é como você olhar para a luz do sol através de uma lente marrom e concluir que a luz do sol é marrom ou que a sua visão é naturalmente marrom, quando nós sabemos que nem a sua visão, nem a luz do sol são marrons. A lente que está se interpondo entre a sua visão e aquilo que você está vendo, a lente que está distorcendo a sua visão representa os temperamentos diversos que as pessoas possuem: eles não são a pessoa, como a lente não é você; o temperamento que você “tem” não é você, seu comportamento e suas reações também não são você. Então, quando você diz “se alguém me acusa de ser um picareta eu fico logo irritado e a minha primeira reação é agredir a pessoa”, isso que você está descrevendo também não é você. Esse “eu” que fica irritado e reage com agressividade não é você, esse “eu” é o seu ego. Lu Tzu, que escreveu o “Segredo da Flor de Ouro”, dizia para seus discípulos: “antes do eu, quem sou eu? depois do eu, quem sou eu?”

Então, se temperamento não é você, comportamento não é você, a “forma de ser” não é você, o que você “pensa” que você é também não é você, qualquer coisa que você possa definir como sendo você, na verdade não é você, se nada disso é você, o que, então, é você, o que é o “verdadeiro eu”? o verdadeiro eu não poderia ser interpretado porque não possui forma, ele é algo transparente, é uma consciência translúcida, que não tem forma, não tem imagem e está além da linguagem. Esse “verdadeiro eu” não poderia, nem mesmo, ser chamado de “eu” porque ele é um “eu universal”, ele é o verdadeiro espírito do homem e a razão de todas essas interpretações erradas é que esse verdadeiro espírito do homem é como uma pérola luminosa que normalmente está tão coberta de poeira que sua luz não consegue resplandecer. Para ver o brilho dessa pérola, você precisa tirar antes a poeira da superfície, ou seja: para conseguir chegar à iluminação, para conseguir resgatar sua consciência verdadeira, que é a sua verdadeira identidade, primeiro você vai precisar saber que tudo aquilo que você supõe que você é, na verdade não é o que você é, na verdade tudo isso corresponde à poeira que está impedindo a pérola, que é a sua consciência, de resplandescer.

Todos nós somos apegados à nossa identidade e essa identidade é como se fosse uma couraça que temos dificuldade de tirar.

Quando uma pessoa fica doente é porque atraiu energias perversas, invejas, pensamentos negativos e o que atrai isso tudo são o seu corpo ilusório, sua energia ilusória, sua identidade ilusória. Essa identidade ilusória é exatamente aquele “eu” que você pensa que é. Todos nós somos apegados à nossa identidade e essa identidade é como se fosse uma couraça que temos dificuldade de tirar, é como se fosse uma poeira que já tivesse virado uma casca grudada em cima da pérola, impedindo o seu brilho original de aparecer, sob qualquer ângulo pelo qual a pérola fosse observada. Você, então, quando olha para a pérola passa a não encontrar a luz original da jóia; você encontra, no seu lugar, uma casca colorida: umas mais azuis, outras mais puxadas para o vermelho, outras para o amarelo; umas com uma característica mais vaidosa, outras com característica mais invejosa, outra mais irada, outra mais depressiva e outras que têm todas essas características juntas e misturadas. Essa, portanto, é exatamente aquela massa que encobre a verdadeira luz do espírito, que vem a ser a pérola espiritual que está dentro de nós. Então, a partir do momento em que você passa a identificar essa casca externa como se ela fosse você mesmo, absorvendo como suas as características dessa casca, começa a atrair os tipos diferentes de energia para você.

Uma pessoa que tem uma tendência de ira, revolta, diz: “meu temperamento é assim: eu sou justiceiro e se alguém me diz alguma coisa injusta eu fico muito irado e sou capaz de matar quem pratica a injustiça”. Essa pessoa pensa que sua natureza é aquela, que ela é irada por natureza, mas aquilo que ela pensa que representa a sua essência vem a ser aquela “casca”, que nesse caso apresenta-se de uma forma irada. Essa casca é que foi chamada, no texto, de “corpo do ego”, ou seja: corpo do ego é o temperamento, a característica própria que o ego tem. Supondo-se, então, que a sua característica seja predominantemente irada, você vai atrair uma série de energias que vão convergir para a sua ira, é como se a sua ira se tornasse um ímã. É comum, inclusive, você ouvir dizer, por exemplo, que pessoas “brigonas” estão sempre atraindo brigas porque elas estão sempre “prontas” para uma briga, estão sempre procurando uma briga, olhando para os lados já pensando em provocar uma briga, investigando o que está à sua volta para ver se conseguem brigar com alguém. Isso é o que os taoístas chamam “corpo do ego”, que vem a ser, exatamente, aquele temperamento que habita em você e atrai as coisas do mundo externo para a sua manifestação.

Uma pessoa que tenha um comportamento irado vai atrair um tipo de energia que vai se alojar no seu corpo emocional, mental ou energético, que vai se alojar numa determinada região do seu corpo, fazendo com que essa parte do corpo adoeça. Por exemplo, a ira atrai muita energia perversa para seu fígado e vesícula e normalmente isso gera muito problema nesses órgãos. Essa energia perversa também traz desequilíbrio e desarmonia em escala menor, com uma série de sintomas nas regiões do corpo relacionadas a esses dois órgãos, como por exemplo enxaqueca, torcicolo, calores, rouquidão, garganta inflamada, etc. Dessa forma, você fica doente porque cultiva e desenvolve uma identidade egóica, que é a do corpo do seu ego. Portanto, se você cultuar essa identidade egóica vai atrair energia perversa e doenças que vão se alojar no seu corpo e trazer sofrimentos para você. Por isso, Mestre Dzen-I diz que uma pessoa que fica doente deveria observar qual a origem da sua doença. Se você tem um ego forte, se você tem um apego profundo numa identidade ilusória do seu ser e não consegue se desapegar da sua forma, da sua personalidade, do seu temperamento, das suas idéias, se você não consegue alcançar a quietude e a transparência, automaticamente vai contrair enfermidades.

Wu Jyh Cherng

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